dulzura argentina

16 Oct

Naquela consulta que eu fiz com o psicólogo vocacional, tive que contar a história da minha família, que pela parte da minha mãe começa assim: meu avó Heinrich saiu da Alemanha na primeira guerra porque seu pai, envolvido com políticas militares, conhecia bem seu filho e tinha medo que ele lhe aprontasse alguma. Minha avó Dorotea saiu da Alemanha um pouquinho antes da segunda guerra fugida em um navio cheio de jovens judeus com menos de 18 anos. Meu bisavó chegaria mais tarde, saindo da Inglaterra no último dia possível. (Minha bisavó havia morrido eletrocutada em um abajur mas, antes disso, tinha feito parte da primeira turma de mulheres a se formar em uma universidade – que, neste caso específico, era uma universidade de Química. Já meu tio avó, morreu bem novinho, de alguma doença como meningite). Todos foram parar em Buenos Aires e lá recomeçaram suas vidas com a esperança que era esperada neste tipo de situação.

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Dorotea se formou em fisioterapia e conheceu Heinrich que vivia de inventar coisas. Seu invento mais famoso, um sabonete feito com a lama sulfurosa da Patagônia Argentina, deixou rico seu amigo Ardit (o único ainda vivo de toda essa história). Ardit tentou dar dinheiro para Heinrich que usou todos os palavrões em espanhol que conhecia e jogou a oferta pelos ares no predinho da calle Peña onde moravam e onde viria a nascer a Claudia, minha mãe. Minha mãe adorava uma boneca chamada Mariquita Perez e gostava de ir comprar biscoitos quebrados diretamente na fábrica, onde eram mais baratos. A pequena Claudia cresceu ouvindo alemão e respondendo em espanhol e, safada, hoje fala os dois, e inclusive o português, sem sotaque algum.

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No fim da década de 50, por questões políticas, esta linda família veio parar no Brasil, em São Paulo, em Santa Cecília. Meu avô continuou inventando, plantando, criando (perfume, tomate, pato) e minha avó teve sucesso na carreira de fisioterapeuta. Minha mãe odiou o vestido de estrelinhas que minha avó fez para a sua formatura e depois disso passou a criar suas próprias roupas comprando tecidos na rua Oriente.

Se passaram muitos anos até que minha mãe se casasse, eu nacesse, a família crescesse, e um dia fôssemos juntos para Buenos Aires. Vó, mãe, padrasto (a vida muda), irmã e eu, todos encarapitados na linda pousada/bed and breakfast da Maria, o Malabia House. Me apaixonei pelo Malabia House e morri de amores por Buenos Aires, pelo dulce de leche, pelas praças e pelo espanhol. Voltei ano após ano, com o Roger, sozinha, com amigas. Me encantei pela moda argentina e fiz grandes amigos por lá. Dois deles, Nico e Pablo, meu amores, almas gêmeas, são deliciosos complementos para a minha vida, e me alegram com seu “hola” diário no messenger. Nico faz uma deliciosa e inigualável pizza, e Pablito me compra facturas e biscoitinhos que comia na infância só para eu entender um pouco mais da alma argentina.

(Minha mãe, no Skype, acaba de me dizer o nome completo do meu avó Heinrich Herrmann August Carl Richter von Schallstatd Hanser. E eu me chamo só Luana Azeredo? Que tal Luana Azeredo von Schallstatd?)

Conheci Nico e Pablo porque me apaixonei por uma bolsa deles e estava pensando em trazê-las para vender no Brasil. Nos encontramos no McDonalds da 9 de Julio em frente ao Obelisco e rimos como se já nos conhecêssemos por toda uma vida. As mesas em volta riram junto tamanha a alegria. Pablo estava enfurecido com os piqueteiros que ganhavam salário e iam tirar férias em Mar del Plata. Me apaixonei ainda mais pela Argentina e por esses dois queridos.

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Ah! As bolsas deles, que fazem o dia de qualquer um ficar mais doce e mais poético, as Bolsas de Viaje, são a pura dulzura argentina! Hoje vi a nova coleção e não saberia nem por onde começar a escolher. Amei a sacola de couro que parece sacola de papel e as bolsinhas tostadas, só para ficar no tema da comida.

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E agora fiquei com vontade de tomar mate com tostadas e dulce de leche! E com saudades do Nico e do Pablo, e com vontade de ter convivido com meu avó, e com saudades da minha avó, e com muita vontade de mudar meu nome para Luana Azeredo von Schallstatd – esse “von” no meio não é chiquérrimo?

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